12 de dezembro de 2017 às 02:00

Por uma família que faça algum sentido, a história de Saar

Comentei recentemente no Museu da Imagem e do Som, com André Fischer (criador do MIX Brasil), o belíssimo documentário "Quem Vai Me Amar Agora?", dirigido pelos irmãos Heymann (2016) e apresentado no evento Um Caso de Cinema - Filmes que valem uma convers

Comentei recentemente no Museu da Imagem e do Som, com André Fischer (criador do MIX Brasil), o belíssimo documentário "Quem Vai Me Amar Agora?", dirigido pelos irmãos Heymann (2016) e apresentado no evento Um Caso de Cinema - Filmes que valem uma conversa", de Daniela Wasserstein. No filme, o protagonista Saar busca reatar laços com sua família –que vive num kibutz em Israel–, de quem está separado desde a revelação pública de sua homossexualidade, há 17 anos. Profundo e emocionante, o filme escapa de pieguices e acerta no tom ao retratar cada integrante da família com a dignidade que lhe é devida.

O exílio forçado deu a Saar a chance de integrar o London Gay Men's Chorus, que aparece no filme como família alternativa, quase um personagem, pontuando os momentos mais importantes da narrativa. Coletivo de valor inestimável, quando se pensa no longo caminho que temos pela frente para garantia da integridade moral e física desses sujeitos.

Saar é portador de HIV há alguns anos, e a experiência com a doença parece precipitar o desejo de voltar ao convívio familiar. Saber-se mortal pode nos ajudar a medir o que perdemos/ganhamos com nossas escolhas.

O irmão mais velho de Saar aparece diante das câmeras repreendendo-o, por medo de contágio do HIV caso ele volte para Israel e passe a conviver com os sobrinhos. Sabemos que o contágio por contato social é nulo, informação que o irmão de Saar tem, mas parece não ser capaz de processar, como muitos entre nós. De qual contágio poderia tratar-se, então? Não se trata de supor uma homossexualidade enrustida no irmão, por exemplo, da qual decorreria sua homofobia, mas de refletir sobre as ameaças que estão em jogo. Revela-se o medo de uma transmissão de outra ordem.

A coragem de alguns de se assumirem em situações tão adversas nos confronta com as concessões que fazemos em nome do outro e que surgem da nossa necessidade de sermos aceitos a qualquer preço. O gosto amargo vem quando percebemos que somos aceitos na condição de não sermos nós mesmos. Terrível paradoxo, que nos faz ressentidos, pois revela que o amor do outro por nós é acima de tudo narcisista (amo em você aquilo que penso que sou ou gostaria de ser). Corremos o risco, como Saar, de não conseguir mais fazer essas concessões?

Ao assumir seu desejo em um ambiente claramente hostil à ideia da homossexualidade, Saar coloca a ética do desejo acima da lei religiosa (na Torá, texto sagrado do judaísmo, explica a mãe do rapaz, a homossexualidade era punível com a morte). Como a maioria das pessoas infectadas pelo HIV hoje em dia que estão bem assistidas, Saar encontra-se com boa saúde e com bom prognóstico, ainda que sofra com os efeitos colaterais das medicações. No entanto, é recorrente no filme a ideia de morte terrível e iminente. Torçamos para que o protagonista e sujeitos na mesma condição não cumpram o ditame de algumas leis religiosas e façam de sua doença a sentença de morte que a culpa pode torná-la.

Mas torçamos também para que as famílias tenham a coragem de aproveitar a oportunidade única que um sujeito como Saar traz –não de destruí-las, como muitos temem hoje em dia, mas de fazer com que tenham algum sentido ainda.

@vera_iaconelli
veraiaconelli.folha@gmail.com

Fonte: FOLHA

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